BigLinux e a Lei Felca (ECA Digital)

:loudspeaker: Comunicado à Comunidade: BigLinux e a Lei Felca (ECA Digital)

Olá, pessoALL! :waving_hand:

Como membro do time principal (core team) e desenvolvedor voluntário do BigLinux, venho fazer um comunicado importante e transparente sobre nossa posição em relação à Lei 15.211/2025, a chamada “Lei Felca” ou ECA Digital.

Desde o primeiro dia de vigência da lei, muito se falou em desinformação, pânico e bloqueios teatrais. Enquanto isso, a equipe do BigLinux trabalhou silenciosamente para oferecer uma solução concreta, técnica e que respeita a privacidade dos usuários.

Disponibilizamos para toda a comunidade o projeto big-parental-controls, uma suíte de controle parental nativa para Linux, desenvolvida para atender às exigências da lei de forma local, transparente e sem abrir mão da liberdade.

:backhand_index_pointing_right: Link do projeto no GitHub: https://github.com/biglinux/big-parental-controls


:balance_scale: Um Trabalho Conjunto: Técnica e Jurídica

Queremos destacar que essa solução não foi construída apenas no código. Ela é fruto de um esforço coletivo que contou com a orientação jurídica do Dr. Athayde, advogado que faz parte do time do BigLinux e nos ajudou a desembaraçar o texto da lei, interpretar as reais exigências e garantir que a ferramenta fosse construída exatamente com base no que o documento legal pede — sem exageros, sem achismos e, principalmente, sem abrir mão da defesa da liberdade do usuário.

Foi o Dr. Athayde quem nos ajudou a enxergar os limites da lei e a construir uma solução que não apenas cumpre o que está escrito, mas também protege o projeto de interpretações absurdas que vimos circular por aí.


:white_check_mark: O Que a Ferramenta Faz e Por Que Ela é Diferente

Diferente de soluções que dependem da nuvem ou de dados biométricos, o BigLinux Parental Controls é:

  • Local por Design: Todos os dados de configuração e atividade ficam apenas no computador da família. Nada vai para a nuvem, sem telemetria, sem contas remotas.
  • Foco no Responsável: A ferramenta é ativada pelo adulto que configura a máquina para a criança. É esse adulto quem declara a faixa etária (0–12, 13–15, 16–17, 18+). Isso satisfaz a exigência de verificação de idade do Art. 12, sem necessidade de validação remota, biometria ou CPF.
  • Mecanismos Sólidos: Usa tecnologias nativas do Linux como:
    • Controle de Apps: Bloqueio via ACLs.
    • Filtro Web: Redirecionamento DNS via nftables.
    • Tempo de Tela: Limites via regras do PAM.
    • Indicador na Bandeja: Informa ao menor que o monitoramento está ativo (Art. 17).
  • Privacidade e LGPD: Oferece botões para que o responsável possa exportar ou deletar todos os dados de atividade a qualquer momento, atendendo à LGPD e ao GDPR.

:warning: A Posição do Mantenedor: Uma Solução Necessária, mas Triste

Disponibilizamos essa ferramenta por responsabilidade, mas não a celebramos como uma vitória. Ela é, na visão do nosso mantenedor Bruno Gonçalves, um retrocesso necessário para manter o projeto vivo.

No README, o Bruno deixou uma carta poderosa que merece ser lida por todos. Reproduzo um trecho que resume o sentimento:

"Este é o programa mais difícil que já construí — não por razões técnicas, mas porque percebi que o país onde vivo, e muitos outros, estão caminhando numa direção em que eu não poderia ter me tornado quem sou. Publiquei meu primeiro site aos 12 anos e lancei a distribuição BigLinux aos 17.

Mais uma vez, em troca de uma suposta tentativa de proteção, a liberdade está sendo entregue — e desta vez é a liberdade de ser um verdadeiro nerd: alguém que pode estudar como o hardware funciona, trocar o sistema operacional, escrever seus próprios programas e compilar o kernel com os ajustes que quiser.

Hoje é um dia triste para a humanidade. Só porque você não tem interesse em compilar kernels, editar código-fonte, rodar contêineres, criar suas próprias VPNs ou simplesmente desmontar como as coisas funcionam pelo puro prazer de aprender — isso não significa que você deva apoiar leis que negam a crianças e adolescentes a liberdade de fazer exatamente essas coisas."

Ele questiona: quantos jovens nerds, como ele foi, terão seu caminho para a tecnologia dificultado por leis que não consideram a existência de quem quer aprender e construir, em vez de apenas consumir?


:white_check_mark: Conclusão: Nosso Papel Agora

  1. Disponibilizamos a solução: O BigLinux é, até onde sabemos, a primeira distribuição brasileira a lançar uma ferramenta completa e nativa que abrange as exigências da lei. E ela está pública para qualquer outra distribuição que queira usar, adaptar ou se inspirar.
  2. Lutamos contra a desinformação: Muita mentira e falácia se espalham. A nossa resposta é código aberto, documentado, funcional e respaldado juridicamente.
  3. Defendemos a revisão da lei: Implementamos a ferramenta por necessidade, mas concordamos plenamente com o Bruno e com o Dr. Athayde: a lei, do jeito que está, é um retrocesso e precisa ser revista e ajustada para não sufocar a liberdade de aprendizado e inovação que sempre definiu a comunidade de software livre e os entusiastas da tecnologia.

Leiam a nota completa do mantenedor no README do projeto. É um desabafo honesto de quem passou a vida construindo código de graça para os outros e agora precisa gastar seu tempo garantindo que seu projeto não se torne “ilegal” simplesmente por existir.

Seguimos na luta, com código, transparência e crítica construtiva.

BigLinux Team
Grato
Ruscher

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Não sei se entendi direito o funcionamento da ferramenta, mas isso não é proibido pela lei por se tratar de declaração de idade?
A lei veda a autodeclaração de idade no art. 9º, § 1º.
De toda forma, parabéns pela iniciativa e agilidade.

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EXCELENTE!!!
Parabéns ao Biglinux!!! Subiram ainda mais no meu conceito. :clap: :clap: :clap:

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:clap: :clap: :clap:
Demais mano!
Fiquei até curioso com a comunidade do Big agora, sou bem novato no linux e confesso que fico um pouco com o pé atrás em testar distros após eu ter me firmado no OpenSUSE, mas deu vontade de dar uma olhada melhor no projeto!

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Se é o adulto responsável que configura o sistema e declara a idade, não se trata de autodeclaração. Ou estou errado? :thinking:

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Autodeclaração:

É quando a própria pessoa declara uma informação sobre si mesma, sem precisar apresentar prova imediata naquele momento.

Exemplos comuns de autodeclaração:

  • Dizer sua renda para acessar um benefício social

  • Declarar sua cor/raça em políticas de cotas

  • Informar que se enquadra em certa condição (ex: baixa renda)

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Parabéns pela solução inteligente e por não endossar o coro do sensacionalismo. De fato a lei possui lacunas e seria muito bem vinda uma revisão. Mas isso só pode acontecer com debates sérios em que se levantem propostas alternativas e cobrança aos órgãos responsáveis.

Pensando agora, do ponto de vista mais social, psíquico e filosófico da questão (considerando a carta do Bruno Gonçalves), gostaria de deixar algumas reflexões diante de uma questão que é milenar na história da humanidade (e que longe de mim achar que tenho uma resposta definida para isso).

Como seria possível proteger os indivíduos e ao mesmo tempo dar-lhes liberdade?
Como seria possível proteger pessoas que estão, de fato, expostas à riscos reais e concretos e garantir a liberdade, inclusive, daqueles não estão no grupo a ser protegido?
Como sequer é possível afirmar que existe liberdade em meio a condições sociais de desigualdade tão discrepantes?
Com condições concretas podem dar ao indivíduo uma liberdade concreta?

Viver em sociedade pressupõe uma espécie de contrato com o outro, que retira, parcialmente a liberdade, mas se assim é, essa liberdade, pré sociedade, seria em última instância puramente um logro discursivo, condição ontológico inacessível ou como prefiro chamar: tempo mítico.
Por outro lado, a condição de viver em sociedade é necessária para a própria existência e sobrevivente do indivíduo, isto é, só pode haver um indivíduo que questione a liberdade porque há antes uma sociedade que lhe dá a materialidade para tal.

Deixo abaixo algumas obras que ajudam a pensar a respeito da liberdade, do indivíduo e da sociedade, pra quem sabe, ir criando mais pulgas atrás das nossas orelhas:

  • República - Platão;
  • Do Contrato Social - Rousseau;
  • Sobre a liberdade - Stuart Mill;
  • O Sentido da Liberdade - Angela Davis;
  • Para Além do Leviatã - István Mészáros;
  • Depois do Futuro - Franco Berardi;
  • O Futuro de uma Ilusão - Freud;
  • Mal-estar na civilização - Freud;
  • Psicologia das Massas - Freud
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Também fiquei em dúvida. Quem valida quem valida o usuário menor? Gostei do projeto, espero que seja mais do que o necessário e assim já está de bom tamanho.

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O que acha de ajudar a fazer uma base comum para todos? Esse projeto que eu fiz provê um backend universal plug and play pra controle de informações de metadados aos moldes do ECA Digital e do LGPD

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Bendito BigLinux. E que trabalhe nisso com os amigos do TigerOS e outros projetos.

O professor Juliano Ramos deu a devida divulgação a esse trabalho do Big, que é um farol de qualidade. Aliás, a coisa está tão feia que, simplesmente por ser sereno e ponderado nesse assunto, o sempre gente boa professor Juliano foi atacado pela turba da guerra suja na Internet.

Os haters e paus-mandados foram ofender o cara do “A vida é muito boa e, com Deus, sempre vai dar certo!”…

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Se configurar controles parentais e regular acesso a contas de administrador em computadores adequadamente fosse conhecimento comum entre adultos, a Lei Felca nem teria motivo para ser aprovada.

Ainda está a cargo da legislação complementar, mas temo se qualquer declaração de idade feita no próprio dispositivo sem validação com uma base de dados centralizada for definida como “autodeclaração”.

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Não uso e não gosto de absolutamente nenhum projeto nacional de tecnologia que envolva tratamento e armazenamento de dados sensíveis, pessoais e privados. Mas é valido ressaltar o esforço e competência que vcs fizeram pra se adequar que ao meu ver ficou “ideal” a essa lei satânica. E por o próprio bruno demonstrar que não concorda com essa lei imoral fez eu ter realmente algum nível de respeito por esse projeto. Enfim, parabéns pelo posicionamento coerente e acredito que a solução foi o menos prejudicial dentro do possível. Uma solução implementada de forma infeliz, mas que deve agradar os usuários dessa distro.

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Leis “satânicas” e imorais eu pensava que eram coisas como as Jim Crow do Sul norte-americano, ou as baixadas do começo dos Anos 30 a 1945 na Alemanha, ou vários decretos soviéticos. Receber esse tipo de adjetivação a Lei Felca é bem espantoso e bem sinalizador do tipo de abismo em que nos metemos…

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Espantoso é a pessoa ser inocente em achar que essa lei, no qual nenhum profissional sério defende a parte técnica dela (é bizarramente mal feita) achar que o objetivo central é de proteção e não de controle estatal sobre os usuários na internet.

A única e real dúvida é saber se quem a defende o faz por má fé ou ingenuidade msm.

Recomendo a leitura de 1984 antes de achar que um governo que cobra 6 meses de trabalho em impostos quer realmente o bem de sua população.

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Se o governo tivesse preocupado com isso ele aumentaria as penas. N seja ingênuo.

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Os cara se passa demais, esse tipo de pessoa ai ganha dinheiro falando muita besteira, e uma bolha de pessoas aplaude ainda, não deve levar essa cara a serio em nada

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A proposito como sempre falei antes, avlcredito que o maior problema são como as leis são feita no brasil, não especifica que Y pode, e X não pode, as leis são muito mal feita, se colocar especificamente apps e sites, já era 99% melhor, tirando isso acho aceitavel colocar um limite como o mundo vai hoje

Isso só mostra que mesmo um lado ou outro, não tem qualquer pessoa com conhecimento tecnico em qualquer governo, deixa qulquer um triste em pensar que não tem uma alma lá que poderia falar sobre o open source