Muitos tópicos – como este – acabam num impasse entre “contra” vs. “a favor”.
Impasse, porque um lado não vai convencer o outro – nem, vice-versa.
E a essa altura, os prezados colegas nem sequer fazem esforço para “convencer”. – Vira “briga de torcida” – aquela coisa que não chega a ser “briga”, propriamente… É mais uma zoação, sem que nenhum dos lados tenha qualquer expectativa.
Só, marcar posição.
E o pior: – Sem a “alegria” que caracteriza uma zoação “sadia” – aquela, em que as duas partes se divertem, relaxam, extravasam, se aliviam – e no final saem amigos, porque os dois lados se divertiram.
Agora, sobre XLibre, X11, Wayland.
Neste tópico, vi vários colegas apresentarem vários motivos diferentes “contra” Wayland. – Todos válidos, creio eu. – Porém, todos diferentes, em vários pontos.
Há “contras”, por causa de alguma placa de vídeo XYZ, ou XPTO, ou etc. – Há “contras”, por causa de um jogo Trololó, ou por causa de um jogo Pocotó, ou etc. – Todos, motivos particulares, específicos.
Nenhum, por motivos “coletivos” – que seriam de se esperar, quando se pensa em “comunidade”. – Mas a verdade é que “comunidade” virou pecado, velharia, coisa superada.
Discutíamos sobre a chatice de ter diferentes empacotamentos – “.deb”, “.rpm”, “.etc” – então, vamos unificar! – Ótimo! – Agora, temos “.deb”, “.rpm”, “.etc”, “.snap”, “.flatpack”, “.appimage”, e sei lá mais o quê.
O que nunca discutimos – ou, sufocamos qualquer possibilidade de discutirmos – é que os “velhos” tipos de empacotamento favoreciam a vida “comunitária”. – Na verdade, o dev não “tinha obrigação”, nem “necessidade”, de fazer 300 empacotamentos diferentes.
O que ele precisava, era “conquistar usuários” para seu aplicativo. – Atingindo certo patamar, uma distro decidia colocar aquele aplicativo em seu repositório. – Tudo que o dev precisava fazer, era colaborar, dialogar – e a equipe da distro empacotava naquele formato.
Daí, outra distro… outra distro… e aquele aplicativo dele acabava empacotado e oferecido pelas principais distros. – Daí por diante, era só questão de tempo para se espalhar pelas “distros menores”… até se tornar algo quase universal.
Zilhões de pacotes atingiram esse patamar – sem que seus devs fossem “obrigados” a fazer “cada empacotamento”.
E com um “plus”: – Tudo, sob “curadoria” de cada distro – alertada pelos bugs reportados por suas respectivas comunidades.
Não conquistou usuários? Não atingiu “massa crítica”? – Deveríamos entender que esta foi a falha – e não, criticar a existência de vários formatos de empacotamento, como se essa fosse a causa do insucesso “individual” daquele dev & seu aplicativo.
Mas o “mundo” passou por algumas “transformações culturais”, dos anos 90 para os anos 20 atuais. – Não foi que “o mundo” decidisse mudar. Não foi que “a humanidade” decidisse mudar. – Interesses econômicos decidiram.
Lembro que, quando mudamos para um apartamento com mais espaço, e mais quartos – porém, quartos menores – meu irmão e eu criticamos, reclamamos.
Meu pai, que era engenheiro, nos explicou que quartos não tinham a função de nos aprisionar. – Um apartamento devia nos induzir a frequentar e permanecer nas áreas comuns, de convivência. – Bom, isso parece que mudou. Agora, cada quarto deve ter seu banheiro, seu telefone, sua TV, seu PC etc., de modo que cada filhote de ser humano se sinta autossuficiente em seu casulo individual.
Não foi “a humanidade” quem decidiu assim. Os seres humanos nem foram consultados. Aliás, precisaria haver um debate, caso quiséssemos uma consulta racional. Quem votaria? Adolescentes a partir dos 15 anos? Crianças a partir dos 5 anos?
O velho princípio de “inviolabilidade do lar” – onde ninguém entra sem ser convidado, ou por ordem judicial (e mesmo assim, jamais entre 22:00 e 6:00 – fragmentou-se no “casulo individual”, onde impera o individualismo.
“Ah, é bom que super-mega-hiper-corporações multinacionais ‘aportem recursos’ (e votos!) para maior desenvolvimento e glória do software comunitário”… ops! – Não! Agora, “comunitário” virou anátema! – … para o “software livre”.
O sonho do “eu” foi implantado com sucesso. – Snap! Flatpak! AppImage! – Chega desse negócio de “comunidade”! Viva o individualismo! Desunidos venceremos!
O SystemD tornou-se maior que o Kernel – e trocou o “faça 1 coisa mas faça bem feito” – por, "isso é o progresso, e quem se opõe é um chato! um dinossauro! etc.!
Nesse Admirável Mundo Novo, por quê (com mil capitães gancho!) deveríamos nos preocupar com “as pessoas”?? – As empresas sejam louvadas! – Elas estão investindo, então, o que elas fizerem está bem feito – e quem não gostar, é um chato, um “filósofo”, um “ideólogo” – para não xingar de coisas piores!
Eu me pergunto: – Por que foi, exatamente, que fugi do Windows – aliás, das imposições da M$, Apple, e qualquer outra super-mega-hiper-corporação multinacional?
Por que, exatamente, optei pelo software aberto, livre – “comunitário”?
Certamente, não para “ter de aceitar” o que a Red Hat ou a Canonical “decidirem” – unicamente por seus próprios interesses (… ou alguém acha que…).
Mas agora, nem percebemos mais o que as empresas nos impingem. – Elas já nos adestraram a “argumentar” em favor de tudo que enfraqueça o direito de escolha. – Hoje, somos nós, que defendemos, com unhas e dentes, que não tenhamos qualquer direito de escolha.
“Ah, quem quiser, que faça um fork, rá rá rá rá!!!”
Começamos (ou nossos pais, avós começaram) por nos insurgir contra a “lógica” do capital, que nos impunha jogar fora hardware bom, porque “agora, todos têm de comprar hardware super-bom”.
E acabamos por defender – com unhas e dentes – exatamente a mesma coisa – só que, agora, sob mil argumentos “à la software livre” – de que, SystemD é o futuro e quem não quiser, que se vire – Wayland é o futuro, e quem não gostar, que se dane – e assim por diante.
Eu não tenho absolutamente nada contra Wayland! – Mas por que, com mil diachos, Wayland precisa significar o fim de tudo que não seja Wayland?
Nada contra o SystemD! (“tenho amigos que são SystemD”, ha ha) – mas por que, com mil dianhos, isso precisa sufocar qualquer alternativa?
A “lógica” do capital e do consumismo, agora, são conduzidas… por “fundações de software livre” – Debian, KDE e.V. etc.
Isto é o que significa, “ain, que bom que as super-mega-hiper-corporações multinacionais estão botando grana no software livre”.
Eu não uso XLibre. – Continuo usando X11 em todas as minhas distros – exceto o Fedora, onde uso Wayland, para “ver” o que vem pela frente – porque Wayland não é a única coisa que Fedora / Red Hat andam “inventando”.
Não tenho nenhuma placa de vídeo XYZ, nem XPTO, nem nada. – Não jogo Pocotó, nem Trololó. – Wayland simplesmente bagunça todas as “regras de janela” que uso há 10 anos.
Não vejo “evolução” alguma, quando o KDE Plasma deixa de abrir meus aplicativos, cada um numa posição, tamanho e formato. – Agora, abre tudo no centro da tela, e perco tempo arrumando cada coisa no seu lugar. – Ok, dá para organizar de novo. Mas quando mando renomear uma imagem (F2), em vez de uma janelinha, abre-se um janelão – igual ao tamanho da imagem.
Renomear no X11 – que uso em 11 das minhas 12 distros:
Renomear no Wayland – que felizmente só uso no Fedora – o mínimo possível:
Configurações do Dolphin – em 11 das minhas 12 distros, com X11:
Configurações do Dolphin – no Fedora, com Wayland:
Nada contra o Wayland – desde que ele não tenha nada contra mim.
Nem vou entrar em mais detalhes – porque essa postagem já tá longa demais. – Seriam inúmeros.
Isso, para um usuário comum, que não tem nenhuma placa gráfica das galáxias, nem joga qualquer jogo cheio de exigências. – Só o básico do dia-a-dia.
E há muitas outras coisas, que foram “deixadas para trás” – como se as pessoas não importassem. – O que importa, é só “o progresso” – e as pessoas que aceitem!