O problema
O pacote Snap é um sistema de empacotamento de programas criado pela Canonical, a empresa por trás do Ubuntu. Ele serve para instalar aplicativos em qualquer distribuição Linux de forma prática, mas o seu funcionamento exige alterações profundas no sistema operacional.
Para funcionar com total segurança, o Snap depende do AppArmor, uma ferramenta que controla o que cada aplicativo pode ou não fazer no computador. O problema é que o kernel oficial do Linux não possui todos os recursos necessários que a Canonical deseja.
Por causa disso, a empresa precisa aplicar cerca de 60 patches — pequenos pedaços de código modificados — em cima do kernel padrão para que o Snap funcione direito. Essa dependência gera vários problemas no mundo Linux.
Manter esses 60 patches exige muito esforço da Canonical a cada nova atualização do kernel. Sistemas que não usam o Ubuntu, como o Fedora ou distribuições que evitam modificações extras, têm dificuldades para rodar o Snap com segurança total, pois sem esses patches o isolamento dos aplicativos falha.
Como o kernel oficial (upstream) não trazia essas modificações de fábrica, distribuições independentes sofriam imensamente para manter o suporte, o que levou sistemas como o Solus a ameaçarem o fim do suporte ao formato.
E muitos desenvolvedores criticam o Snap por ser dependente demais da infraestrutura da Canonical e do seu kernel modificado, o que dificulta o uso livre em outros sistemas. Enquanto o Snap traz vantagens práticas para o Ubuntu e para dispositivos IoT, a necessidade deses patches dificulta sua adoção difícil para equipes pequenas e co recursos limitados.
Como consequência…
Em meados de 2024, a distribuição Solus decidiu abandonar o suporte ao formato justamente por causa desse peso, explicando que o conjunto com cerca de 60 patches do AppArmor exigia um trabalho exaustivo de manutenção e impedia a atualização livre do kernel.
Sem esses códigos extras, os aplicativos passavam a rodar apenas com confinamento parcial e com avisos de segurança, o que levou a equipe a recomendar alternativas como o Flatpak e planejar o fim total da tecnologia. No entanto, a situação mudou recentemente.
Com o lançamento do snapd na versão 2.77.1, o Solus anunciou que os snaps voltaram a ter suporte a confinamento estrito mesmo sem aqueles patches antigos do kernel, fazendo com que a remoção do empacotamento fosse cancelada de vez, trazendo alívio para os usuários que utilizam o sistema.
Para que isso acontecesse, a Canonical mudou a estratégia e passou a incorporar e embutir partes essenciais do AppArmor diretamente dentro do próprio pacote do snapd (processo conhecido como vendoring de bibliotecas e parsers).
O programa passou a conversar diretamente com os recursos nativos dos kernels modernos, sem necessidade de dezenas de patches. Isso significa que outras distros conseguem rodar pacotes Snap com segurança utilizando o kernel padrão do sistema, marcando o fim das barreiras de adoção.
Isso permitiu que distribuições que haviam abandonado ou planejavam fazê-lo — como ocorreu com o Solus, pudessem reintegrar a tecnologia com muito menos esforço. Com isso, o ecossistema Snap tornou-se mais independente, deixando de amarrar obrigatoriamente a segurança dos aplicativos a um kernel customizado pela Canonical.

