Euro-Office e o "faz de conta" da independência digital

A tensão entre a The Document Foundation (TDF) e o projeto Euro-Office revela uma disputa fundamental sobre o que define a verdadeira soberania digital na Europa.

Embora ele surja como uma alternativa para governos que buscam se distanciar de infraestruturas russas ou de Big Techs americanas, a TDF argumenta que mudar o local de hospedagem dos dados é insuficiente, se o formato dos arquivos continuar sendo o OOXML, da Microsoft.

Para a organização por trás do LibreOffice, a independência tecnológica só existe com a adoção plena do ODF (Open Document Format), um padrão aberto e neutro.

O silêncio do Euro-Office sobre seu formato nativo, sugere uma priorização da compatibilidade com o ecossistema da Microsoft, em detrimento de uma ruptura estrutural, o que coloca em xeque a promessa de autonomia europeia, especialmente diante de legislações como a alemã, que já exigem o uso de padrões abertos.

A tão sonhada autonomia digital

A autonomia digital por trás do Euro-Office é o conceito de soberania tecnológica, onde nações e instituições devem possuir controle total sobre seus dados, infraestruturas e softwares, reduzindo a dependência crítica de fornecedores estrangeiros, especialmente das grandes potências tecnológicas dos EUA e da China.

No cenário europeu, essa busca foi intensificada pela necessidade de conformidade rigorosa com o RGPD e pelo desejo de evitar que informações governamentais sensíveis fiquem sujeitas a leis externas, como o Cloud Act americano, que permite o acesso a dados por autoridades estrangeiras.

O projeto Euro-Office materializa essa autonomia ao oferecer uma suíte de produtividade auto-hospedada e baseada em código aberto, permitindo que governos gerenciem seus próprios servidores e auditem o funcionamento das ferramentas.

Entretanto, essa autonomia é motivo de debate técnico, pois entidades como a The Document Foundation argumentam que a verdadeira soberania não reside apenas no local de armazenamento dos dados, mas também na adoção de formatos de arquivos abertos e universais, como o ODF, garantindo que o controle tecnológico seja pleno e não fique restrito à compatibilidade com ecossistemas proprietários de terceiros.

O novo Conflito de identidade com o OnlyOffice

A nova tensão é uma disputa de narrativa sobre “soberania e identidade”, pois a IONOS e a Nextcloud lançaram o Euro-Office como uma solução europeia soberana para substituir o domínio da Microsoft. O problema é que não é uma criação do zero, mas um fork (uma derivação) do ONLYOFFICE.

O primeiro ponto de tensão envolve a origem do software. O ONLYOFFICE tem raízes históricas na Rússia e, embora hoje tenha sede na Letônia, o projeto Euro-Office foi comercialmente posicionado como uma forma de “limpar” qualquer ligação russa, o que gera desconforto no ecossistema de código aberto, quanto à ética de como o software é promovido.

A The Document Foundation (TDF), que cuida do LibreOffice, entrou na briga com uma crítica técnica e política feroz, acusando o Euro-Office de praticar uma “soberania de fachada” ao utilizar como base a estrutura do ONLYOFFICE, que prioriza a compatibilidade nativa com os formatos da Microsoft (OOXML, como .docx e .xlsx).

Se uma instituição europeia adota uma ferramenta que usa os formatos da Microsoft por padrão, ela continua escrava das decisões técnicas de uma empresa americana, apenas mudando o servidor onde o arquivo está guardado.

Ela exige que o Euro-Office adote o ODF (.odt, .ods) como formato nativo para ser considerado verdadeiramente soberano, algo que o Euro-Office tem evitado responder diretamente, preferindo focar na conveniência da “compatibilidade total com o MS Office” para atrair usuários.

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