A Áustria deu um passo decisivo rumo à independência tecnológica, demonstrando que a soberania digital europeia transforma-se numa realidade concreta. O Ministério Federal de Assuntos Econômicos, Energia e Turismo substitui soluções estrangeiras baseadas em nuvem e softwares proprietários por uma construída em torno do Nextcloud e do Collabora, que integra a suíte de produtividade LibreOffice.
A decisão foi divulgada durante o evento Nextcloud Enterprise Day Copenhagen 2025, marcando uma mudança significativa na forma como o governo austríaco gerencia dados e colabora digitalmente.
Muitas organizações temem a complexidade de substituir tecnologias de grandes corporações por soluções abertas, mas o exemplo da Áustria prova que isso pode ser feito de forma rápida e com impacto mínimo para os usuários.
No centro dessa iniciativa está o conceito de soberania digital, cada vez mais presente nas discussões europeias sobre tecnologia e privacidade. A ideia é simples, mas poderosa: os países devem ter controle total sobre como os dados de seus cidadãos são coletados, armazenados e processados.
A soberania digital é um requisito fundamental para o futuro da Europa. Ele acrescentou que a decisão do ministério austríaco envia um forte sinal a outras instituições públicas para que também promovam suas próprias soluções e reduzam dependências externas.
O projeto austríaco demorou apenas quatro meses entre a fase de conceito e a implementação completa no ministério. O sucesso da transição se deve a uma comunicação clara, treinamento eficaz e uma integração cuidadosa das novas ferramentas com os sistemas já existentes.
Essa abordagem modernizou os serviços digitais e os processos de colaboração, sem alterar os fluxos de trabalho consolidados. Ainda há componentes híbridos - como o uso do Microsoft Teams para reuniões externas - mas a tendência é que essas soluções proprietárias sejam gradualmente substituídas conforme as licenças expirem.
Essa mudança posiciona a Áustria como uma das líderes no movimento europeu por autonomia digital. O país já havia dado passos anteriores nessa direção: em setembro de 2024, o exército austríaco completou a migração de 16 mil estações de trabalho do Microsoft Office para o LibreOffice, uma medida que além de reforçar a soberania digital, gera uma economia anual estimada em US$ 6,5 milhões em licenças.
Embora o BMWET represente apenas uma parte do setor público austríaco, suas ações têm um peso simbólico e estratégico que pode inspirar outros órgãos do governo. É um sinal de que o país está comprometido com uma infraestrutura tecnológica mais segura, sustentável e controlada internamente — alinhada aos princípios de independência digital da União Europeia.
A Áustria não está sozinha nessa jornada. O estado alemão de Schleswig-Holstein, por exemplo, já substituiu ferramentas da Microsoft por alternativas de código aberto como Open-Xchange, Thunderbird, LibreOffice e Nextcloud em 40 mil estações de trabalho. Há relatos de que o estado está desenvolvendo sua própria distribuição Linux, baseada em openSUSE, reforçando ainda mais a busca pela autonomia tecnológica.
Mesmo cidades como Munique, que encerraram o famoso projeto LiMux em 2017, continuam comprometidas com o software livre. Hoje, a cidade foca em padrões abertos, interoperabilidade e aplicativos públicos, e desde 2024 mantém um “Escritório de Programas de Código Aberto”, responsável por garantir que softwares financiados com recursos públicos permaneçam acessíveis a todos os cidadãos.
Com essas iniciativas, a Europa dá sinais claros de que está consolidando um caminho rumo à soberania digital. A Áustria, ao trocar nuvens estrangeiras por soluções locais e abertas, mostra que o futuro da tecnologia pública no continente será cada vez mais livre, seguro e soberano.