Há 30 anos o IPv6 é o futuro, mas por alguma razão o IPv4 segue presente em mais da metade da internet, apesar de suas limitações. Será que há alguma falha de design no IPv6 que justifique isso?
Ótimo texto, @Ariel_Bonfim .
A análise econômica é perfeita, mas acho que tem um ‘buraco’ nessa história que explica por que a adoção é tão desigual globalmente e por que tecnicamente o IPv6 é, sim, uma revolução (invisível):
1. A Desigualdade Geopolítica do IPv4
O texto menciona que o IPv6 vingou no Mobile/IoT, mas esqueceu do fator Geopolítico. A distribuição dos blocos IPv4 originais foi absurdamente desigual. Entidades nos EUA (como MIT, Ford, IBM e o Pentágono) detêm blocos /8 inteiros (16 milhões de IPs cada) sozinhos.
Enquanto isso, países inteiros na Ásia e África tiveram que se virar com migalhas. O IPv6 não “falhou” na Ásia (China e Índia lideram a adoção mundial) porque para eles não foi uma escolha de “ROI”, foi uma questão de soberania e necessidade bruta. Eles não tinham o estoque legado que o Ocidente tem para ficar fazendo “gambiarra” com NAT. A “falha” do IPv6 é, na verdade, um privilégio do Ocidente que pode se dar ao luxo de queimar dinheiro com IPv4 inflacionado.
2. O mito do “Mudou pouco”
Discordo respeitosamente da citação de que o protocolo mudou o mínimo possível. Quem lida com roteamento em hardware sabe que o IPv6 foi desenhado para Hardware, não para Humanos.
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Cabeçalho Fixo: O header do IPv4 tem tamanho variável, o que exige processamento extra da CPU do roteador para cada pacote. O IPv6 tem cabeçalho fixo. Isso permite que roteadores modernos processem pacotes direto no silício (ASIC) com latência muito menor.
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Fim do Checksum: O IPv6 removeu a checagem de erros do cabeçalho IP (jogando a responsabilidade para a camada de Transporte ou Link). Isso libera os roteadores de ficarem recalculando checksum a cada salto (hop), aumentando brutalmente o throughput em backbones de fibra. A “falha de design” para o humano foi uma “obra-prima” para a engenharia de tráfego.
3. O pesadelo do CGNAT e a morte da Internet P2P
O texto diz que o NAT “salvou” o IPv4. Eu argumento que o NAT (e seu filho feio, o CGNAT das operadoras) quebrou a arquitetura original da Internet.
A internet foi desenhada para ser ponta-a-ponta (End-to-End). O NAT forçou a internet a virar um modelo Cliente-Servidor (como a TV a cabo), onde você só consome, difícilmente provê. Tente hospedar um servidor de jogo, uma VPN caseira ou um nó de rede mesh hoje em dia com IPv4: você está preso atrás de um CGNAT da operadora.
O IPv6 não é só sobre “mais endereços”, é sobre restaurar a capacidade de cada dispositivo ser um nó real na rede, acessível (se quiser) de qualquer lugar, sem túneis e gambiarras.
O IPv6 não dominou o “mundo legado”, mas dominou o mundo que precisa de performance e escala (5G, Fibra, Cloud). O resto é inércia de quem ainda tem estoque de IP.
Detalhes muito bem pontuados, @jeffinshadow.
Pessoalmente, imagino que usuários comuns não se preocupam muito com tecniquês de arquitetura de redes. Em vez disso, “se tá funcionano”, eles simplesmente usam, como ocorre com o protocolo ipv4. Porém, quem procura autohospedar seus serviços ou precisa trabalhar com máquinas em redes isoladas, sofre muito com o cgnat e tem como alternativa utilizar o ipv6 dos seus hosts para fazer uma conexão direta facilmente sem gambiarras, se as operadoras envolvidas suportarem o protocolo… Eu mesmo tenho acesso fácil ao meu servidor doméstico via ipv6 e posso acessá-lo de onde houver suporte ao protocolo.
Não há uma má intenção nesse artigo, mas as consequências dele são negativas. Eles ajudam a cristalizar um conceito muito negativo na comunidade de que IPv6 é opcional e não é. É análogo a um post dizendo “Porque o Linux não vingou” e recomendando que as pessoas continuem usando Windows mesmo porque é a maior fatia do mercado.
51% do tráfego da internet brasileira é em IPv6, um market share que o GNU Linux jamais sonhou. O IPv6 como tecnologia é mais bem sucedido em termos de market share do que o GNU Linux.
O NAT é uma gambiarra que custa caro para o ISP e para o data center e naturalmente essecusto é repassado ao consumidor. A performance da navegação por IPv4 é inferior ao IPv6. Há nenhuma vantagem em usar IPv4 em detrimento do IPv6 excetuando uma: a preguiça de aprender algo novo.
Conviver com dois padrões que não são interoperáveis entre si é um problema tecnológico muito sério. Cada aplicação, serviço ou produto IPv4-only força toda a Internet a continuar suportando esse protocolo legado. É um custo partilhado por todos. AWS cobra por hora de uso de cada IPv4. O custo dele só aumenta. O IPv4 precisa sim ser desligado e isso é um passo 2 antes do passo 1 onde estamos, que é por dual stack (IPv4+IPv6) em tudo.
O padrão da Internet é o IPv6. O IPv4 é obsoleto. Produtos que são IPv4-only precisam ser substituídos por aqueles que suportam IPv6. Temos que estimular, recomendar e fomentar a adoção do IPv6 tão quanto estimulamos o uso do Linux.