Acabei de descobrir a engenhoca de enviar imagens com um telégrafo

Gente, um das coisas que me agrada em ser um humano é a capacidade de criar coisas. Esse canal de um estudioso da história, visa explicar como as tecnologias antigas funcionam. E esse novo vídeo eu fiquei parecendo uma criança descobrindo uma coisa nova.

Eu já conhecia a tecnologia da Caixa Preta, não a de aviões, mas uma enorme estrutura metálica que por dentro era tudo preto. Havia só uma única entrada de luz, que se projetava de cabeça para baixo o que tivesse na frente da caixa. Essa caixa era do tamanho de um microônibus e era usada por artistas da realeza em seus projetos de foto-pintura, pois o artista ficava dentro e copiava a imagem na parede que era formada pelos modelos que ficavam do lado de fora da caixa.

Essa idéia de foto-pintura foi utilizada pelos irmãos Lumié mas tarde. Basicamente, as câmeras de Lumiés eram, de certa forma, umas minifiguras portáteis da caixa preta do final da idade média.

E ao saber que além das câmeras de cinema, houve outrs formas de usar o princípio da projeção de luz para enviar fotos com em um telégrafo e telefone a cabo, transformado as ondas de luz em rádio para que pudesse mandar fotos entre as pontas opostas de um continente… Isso me deixou comovido e orgulhoso de ser humano.

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Vídeo muito bem explicado, com todos os detalhes técnicos.

Só achei errado ele começar falando em 1937 – e só lá pela metade do vídeo, citar a invenção anterior, o “belinógrafo”, de Édouard Belin – que não é de 1917, como ele diz, mas de 1907:

Em 1907, Belin inventou um aparelho fototelegráfico chamado Bélinographe (télestéréographe) - um sistema para receber fotografias por fios telefônicos por meio de redes telegráficas. [1]

A invenção de Belin era usada para fotos jornalísticas desde 1914, e o processo foi aprimorado em 1921 para permitir a transmissão de imagens por ondas de rádio . [2]

(e que, por sua vez, aperfeiçoava o Telediagraph de Ernest A. Hummel de 1895).

O “belinógrafo” aparecia muito em livros franceses do início da década de 30 – por exemplo, nas estórias de detetive Maigret, de Georges Simenon, para distribuição de fotos de criminosos procurados pela polícia.

O que se inventou (ou passou a ser usado comercialmente) em 1937, foi uma tecnologia mais avançada, com base em novos materiais disponíveis. – O autor do vídeo explica isso muito bem – inclusive, citando que 20 anos antes o Selênio seria muito caro, por isso usava-se um método mais tosco, porém economicamente viável.

Ao colocar o aperfeiçoamento de 1937 como sendo a “invenção” – e relegar a invenção utilizada desde muito antes, à segunda metade do vídeo – lembrei de Santos Dumont e os Irmãos Wright (não sei por que, ha ha).

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Sim. Lembro-me vagamente do belinógrafico nos livros do detetive Magreit. Confesso que não curti muito as leituras dele, pois não sou fã da leitura melodramática dos franceses.

:rofl:

Sacre bleu!.. Simenon era belga (viveu boa parte da vida nos EUA e na Suíça), e nada melodramático.

Mas, para não fugirmos demais ao assunto “tecnologia”, veja que delícia, o início de “Pietr, o Letão”, de 1931, o primeiro “Maigret”, que começa com um telegrama da Interpol, que na época tinha sede em Viena (Áustria):

Interpol à Sûreté de Paris:

Polícia Cracóvia assinala passagem e partida para Bremen de Pietr, o letão

Depois, de Bremen (Alemanha):

Polizei-proesidium de Bremen à Sûreté de Paris:

Pietr o letão assinalado destino Amsterdam e Bruxelas.

Em seguida, de Amsterã (Holanda):

Pietr letão a bordo cabine G.263 vagão 5, às 11 horas da manhã, no Estrela do Norte, destino Paris.

Depois, um telegrama de Bruxelas (Bélgica):

Verificada passagem Pietr letão 2 horas Estrela do Norte Bruxelas cabine designada para Amsterdam.

Aí, consultou o telegrama do Escritório Internacional de Identificação de Copenhague (Dinamarca):

Pietr o letão 32 169 01512 0224 0255 02732 03116 03233 03243 03325 03415 03522 04115 04144 04147 05221 (…)

E traduziu:

Características de Pietr, o letão: idade presumida 32 anos, altura 1,69, seio paranasal retilíneo, base horizontal, saliência extremo limite, particularidade septo não visível, orelha contorno original, grande lóbulo, enviesado limite e dimensão limite mínimo, antítrago saliente, limite dobra inferior convexa, limite forma retilínea, limite particularidade sulcos separados, ortognata superior, face longa bicôncava, sobrancelha fina e de pelos louros claros, lábio inferior proeminente, espessura grande inferior pendente, pescoço esguio, auréola amarela média, periferia intermediária esverdeada média, cabelos louros claros.

em resumo:

(…) baixo, magro, jovem, cabelos ralos, sobrancelhas louras e finas, olhos esverdeados, pescoço comprido.

Tudo muito objetivo – e um bom retrato da tecnologia da época: – Telégrafo, principalmente (com ou sem fio).

E “telégrafo sem fio” era, simplesmente, o “rádio” – como chamamos hoje.

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Sensacional. Me desculpa falar groselha… Os livros que li de Magreit se passavam na França, em Paris… E tinha toda uma cultura de melodrama que eu só encontrei em livros franceses, agora sobre o autor, o Simeone, eu conheço que ele era belga e que ele dormiu com mais de mil mulheres

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Não há por que se desculpar. – O fórum é sobre tecnologia – e não sobre literatura!

Mais um pouco, você quase escrevia Dionatan Simioni (rs).

Mas o que me chamou atenção no vídeo, foi atribuírem a 1937 uma invenção de 1895, aperfeiçoada em 1907 – e que em 1937 apenas foi aperfeiçoada mais um pouco.

Mas afora essa “inversão” – de “ênfase”, talvez? – o vídeo é muito bom, muito exato e bem detalhado em todos os detalhes técnicos. Eu nunca tinha visto nada tão informativo!

Comecei a trabalhar em jornal em 1976, e no fundo da redação (uma sala comprida), havia um “aquário” (sala com paredes de vidro e ar condicionado) com uma série de “teletipos” (“telex”) e pelo menos 1 aparelho de “telefoto”.

A transmissão / recepção de cada foto era bastante demorada (pelos nossos padrões atuais) – e a qualidade final era bem ruinzinha. – Às vezes, nem dava para aproveitar a foto, de tão ruim. Em geral, nem pediam para mandar de novo. Não compensava o tempo gasto (e talvez o custo). Imagino que em grandes jornais, fosse melhor (principalmente, na Europa, EUA, Japão). O jornal não era lá grandes coisas, talvez os equipamentos fossem velhos, e sem muita manutenção. Em 1976, até uma “máquina xerox” era cara, mesmo para uma empresa de médio porte.

“Telex”, conheci uns 10 anos antes, ainda guri, início da década de 1960, quando um primo jornalista veio a Brasília fazer uma reportagem qualquer, e pediu a meu pai para pararmos numa rua onde ficava a sucursal d’O Globo, para ele mandar o texto para São Paulo – e na saída me deu uma “fita de telex”, como “curiosidade tecnológica”:

Era uma fita estreita, com algumas fileiras de perfurações em posições alternadas – e 1 fileira de furos contínuos (menores), no centro, para tracionar a fita e mantê-la sempre na posição exata, sem desvios laterais.

Depois de grande, já nos anos 70, aprendi que o “tempo de ligação” custava dinheiro – não dava para ligar para o Rio ou São Paulo, e ficar digitando devagar. – O negócio era digitar o texto inteiro, para perfurar a fita. Depois, era só fazer a ligação e “soltar a fita”, que ia passando pela máquina e transmitindo o texto em velocidade regular, sem perdas de tempo. Era devagar (pelos padrões atuais), mas “gastava” bem menos do que ficar digitando manualmente “online”.

Aquele conjunto de 5 perfurações alternadas (5 bits) eram uma “codificação” – começou pelo código Baudot (1870: olha outro francês aí, ha ha), que foi modificado por Murray (1901: incluiu as teclas DEL, CR, LF); depois a Western Union introduziu a tecla de espaço (SPC); em 1930 virou ITA2, que nos EUA foi modificado para USTTY (olha aí a origem do tty: American Teletypewriter code) – “que foi a base para os códigos de 5 bits dos teletipos até a estreia do ASCII de 7 bits em 1963” (fonte).

Houve terminais de digitação com fitas perfuradas desse tipo, para introduzir dados e instruções em computadores – mas era mais comum usar cartões perfurados (talvez porque pudessem ser perfurados em lotes paralelos e depois colocados em ordem? Não sei). – Às vezes me pergunto se as provas de múltipla escolha tinham 5 opções, para facilitar o processamento das respostas por computador.

Na década de 1970, já era possível usar maiúsculas e minúsculas em telex (teletipo) – mas até o início dos anos 1990, todos os “telex” que vi, tinham só maiúsculas. Tarde da noite, um bando de copydesk “penteando telex” – ou seja, trocando “hoje” por “ontem” (para o jornal do dia seguinte), botando acentos e cedilhas, sublinhando as letras que a “composição” deveria botar em maiúsculas, sublinhando o que a “composição” deveria botar em itálico ou em negrito etc.

Não sei se O Estado de S. Paulo, O Globo etc. tinham telex mais modernos – mas as Agências Globo (AG), Estado (AE), France Press (AFP), Associated Press (AP), United Press (UPI), Reuters talvez tivessem de manter compatibilidade com centenas de jornais do interior do Brasil e da América Latina.

O Apple II+ que comprei em 1986, também tinha só maiúsculas. Demorei a descobrir como alternar minúsculas, acentuar etc.

“Da mesma forma que o Apple II, o Apple II Plus não tinha o recurso de caixa baixa (e sequer possuía uma tecla CAPS LOCK). Todas as teclas alfabéticas do teclado retornavam letras em caixa alta, e não havia letras em minúsculas armazenadas na fonte em modo texto gravada na ROM do micro” (fonte).

Depois, os diagramadores calculavam o número de letras, o espaço a ser ocupado na página do jornal – mandavam cortar ou aumentar o texto, para caber no espaço – e marcavam a “fonte”, o tamanho, a largura da coluna, o espaço entrelinhas etc.

A “composição”, no caso, eram datilógrafos com “composers” – máquinas de escrever IBM elétricas “de esfera”, com “memória”. – Os caras botavam lá a esfera com a fonte indicada, datilografavam, depois mandavam a “memória” da IBM imprimir de novo, ajustando o texto na largura indicada, fazendo a “justificação”, hifenizando etc.

E o horror maior, era a “revisão” – um bando de gente que já tinha trabalhado ou estudado o dia inteiro, e que viravam a madrugada corrigindo erros (para a “composição” digitar de novo 1 linha, corrigida). – Depois, ia para a “paginação”, onde as colunas de papel eram coladas nos espaços indicados pelos diagramadores; e as linhas de texto corrigido eram coladas por cima das linhas que tinham erros, usando estilete e cola de bastão.

As páginas montadas iam para o “fotolito” – um estúdio onde eram fotografadas em folhas enorme de filme – e com elas se gravavam as chapas metálicas que iam para as rotativas que imprimiam o jornal.

Por volta de 1986, conheci uma novidade chamada “marmita”, na sucursal d’O Globo: – Um computador portátil, pouco maior que um teclado, com uma tela (visor) de 4 ou 5 linhas, onde o repórter podia digitar sua matéria, mesmo num estádio de futebol. – Depois, “bastava” desatarrachar o bocal de um telefone (ainda analógico), ligar 2 fios da “marmita” nos contatos internos do bocal do telefone, e disparar a transmissão. – Mas antes de desatarrachar o bocal do telefone, tinha que discar para a sede d’O Globo, no Rio de Janeiro, avisar que ia transmitir a matéria, e esperar o sinal de Ok.

Altas tecnologias.

Comecei a me livrar dessa coisa toda, não em um jornal, mas em minha casa. – Em 1990, troquei meu Apple II+ (8bits) por um PC-XT IBM (16bits) – e comecei a usar um software de Editoração Eletrônica, o Xerox Ventura Publisher, que importava textos DOC do MS Word, e já entregava as páginas prontas, nos espaços que eu mesmo diagramava.

A Editoração Eletrônica substituía o copydesk, a diagramação, a composição, a revisão, a paginação e o fotolito (caríssimo): – Era só imprimir com uma HP Laser Jet em folhas de papel-vegetal (semi-transparente), que substituíam o fotolito – e permitiam gravar diretamente nas chapas metálicas para as rotativas da gráfica.

Ainda voltei 1 vez ao jornal, em meados dos anos 1990 – e todas as máquinas de datilografar já tinham sido trocadas por terminais de computador. – O repórter escrevia num terminal, os redatores copydeskavam em outros terminais, os ilustradores faziam a “arte” em computador, o diagramador recebia tudo pela rede interna, editorava em algum Mac, e as páginas prontas já iam direto para as oficinas (também modernizadas), via rede interna. Bom, já tinha alguns anos que eu fazia tudo isso em casa, em 1 só PC-XT 16bits, mas era um jornalzinho pequeno.

No final dos anos 90, organizei um sistema desses numa entidade de pequeno porte (3 jornalistas, 1 jornal mensal). As ilustrações ainda chegavam em papel, e a entidade ainda enviava os textos a uma empresa de editoração, via disketes de 1,44 MB. Convenci a diretoria a contratar 2 profissionais, que faziam as ilustrações e diagramavam o jornal ali mesmo. Depois, era só mandar o jornal para a gráfica, via discos ZIP de 100 MB.

(O disco ZIP foi uma tecnologia de curta duração, pois logo foi substituído pelo CD de 700 MB. Esse, durou um pouco mais, até que o gravador de DVD se tornasse acessível aos mortais comuns).

O que demorou mais, foi a fotografia digital, que ainda era inacessível nos anos 90 – aliás, nem sei se já existia comercialmente. – Eu deixava em branco os retângulos, para a gráfica colocar ali os fotolitos das fotos (que precisavam ser “reticulados”, como mostra o vídeo, pois a chapa metálica das rotativas só funciona com micro-pontos, caso contrário a foto vira um borrão).

Scanner também era caro. Em 1992, um amigo comprou um “scanner de mão”. Terrível. Ele não conseguia passar aquilo em velocidade constante, a imagem saía toda deformada… (e como não tremer?) A resolução também era baixíssima. Aliás, o armazenamento na época era uma piada, pelos padrões atuais. Meu primeiro PC, em 1990, tinha um HDD de 20 MB (e eu fiquei maravilhado, porque não precisava mais botar 1 diskete com o SO, para dar boot e trabalhar: o HDD já tinha o SO e o boot. Era só ligar e usar!).

Cheguei a experimentar uma câmera digital Sony com CD, de um ministério, acho que em 2001 – um horror, pelos padrões atuais. – Enquanto gravava 1 foto no CD, o mundo se acabava, e você não podia fotografar o evento. Tinha de esperar a gravação do CD terminar.

Só pude comprar uma Sony digital com chip de memória (baixa capacidade, pelos padrões atuais) em 2003. – Eu tirava uma tarde para ir à biblioteca do Ministério dos Transportes fotografar revistas e relatórios antigos, e tinha de me segurar, para não esgotar rapidamente a memória. – Muitas páginas, eu fotografava em preto e branco, e / ou em menor resolução.

Hoje, eu já fico impaciente com a demora do celular para abrir a câmera. – O jeito é já andar com ele no “modo câmera”, para só ter de desbloquear.

Bom, falei mais do que o homem da cobra – mas espero que esse resumo da evolução de algumas tecnologias entre 1964-2003 possa servir de guia inicial, caso alguém queira pesquisar melhor sobre o assunto, algum dia.

Não cheguei a ver o linotipo em ação – e muito menos, a composição de livros e jornais usando tipos móveis – porque os jornais em Brasília surgiram a partir de 1960, já com equipamento offset.

Em alguns livros de ficção-científica de autores estadunidenses – em especial, de Clifford Simak e Cyril Kornbluth – o telex ou teletipo da década de 1950 também como “ator” em cenários de redação de jornais.

EDIT - Ia esquecendo. – Na década de 1990, quando começávamos a usar os velhos Modems de 56 kbps, circulou a informação de que a “internet” funcionava melhor com telefones “digitais”. – Na verdade, tratava-se das “centrais telefônicas digitais” (associadas a alguns prefixos de números telefônicos). Os números servidos por “centrais analógicas” (tecnologia mais antiga) davam mais ruído na conexão.

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Uau. Tive que ler várias vezes para entender sua odisseia com jornalismo e computadores. Eu achava que cartões perfurados só foram usados na segunda guerra mundial, que na guerra fria eles já estariam aposentados — essa era minha mentalidade.

Eu me formei recentemente em jornalismo, e eu vejo uma mudança similar. Só que com IAs, muitos veículos já usavam IA devido aos primeiros profissionais de TI da década de 80-90 terem implementado inteligência artificial na infraestrutura dos computadores das editoriais.

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Pelo menos, no Brasil…

Nos anos 60, os cartões perfurados eram muito utilizados. Uma das “profissões” da época era ser “perfurador de cartões” (acho que o nome era outro, mais bonito, mas agora não lembro).

Cartões perfurados já eram usados desde 1880, nas máquinas Hollerith

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Nossa. Para vê como os empregos são “rotativos”. Na década de 40-50 haviam os acordadores de janela, pessoas que cobravam uma taxa para que ficassem batendo nas janelas dos prédios com varas até o proprietário acordar. Com o avanço da tecnologia, essas profissões foram deixando de existir, eu sei que em Cuba e alguns países Africanos extremamente pobres, ainda há acordadores de janela.

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