Informações sobre cabos sub-aquáticos “flutuam” muito, conforme a “fonte” – muitas vezes com linguagem vaga, ambígua, incompleta, marketeira etc.
Tentei sistematizar mais um pouco – principalmente a partir do Submarine Cablemap, que reúne alguns dados básicos (inclusive proprietários), inauguração + mapas. – Não ajuda muito a determinar as capacidades dos cabos, mas lança alguma luz sobre os “jogos geopolíticos”, em busca de redução de custos e de latência, maior segurança e independência, e maior relevância no panorama internacional.
Para lembrar, em 2013: – documentos vazados por Edward Snowden revelaram que a NSA grampeou o telefone pessoal da chanceler Angela Merkel e interceptou e-mails e telefonemas da presidente Dilma Rousseff. No Brasil, a vigilância abrangeu a comunicação da presidente com seus principais assessores e se estendeu à Petrobras. Em 2015, o site WikiLeaks publicou listas detalhando que os EUA também monitoravam os telefones de ministros e assistentes de Dilma.
Brasil - África - Europa
SACS Fortaleza - Angola Angola Cables 2018-09
SAIL Fortaleza - Cameroon Camtel, China Unicom 2020
EllaLink Fortaleza - Casablanca - Portugal EllaLink 2021-06
SACS
O fato de o SACS pertencer à “Angola Cables” é instigante – afinal, Angola não é um país tão rico assim, para tamanho investimento.
Segundo a IA do Google:
A estrutura acionária da Angola Cables, uma multinacional de telecomunicações que opera cabos submarinos e data centers, é composta majoritariamente por empresas angolanas. A Angola Telecom é a acionista majoritária com 51%. As participações restantes são divididas entre a Unitel (31%), MSTelcom / Sonangol (9%), Movicel (6%) e Startel (3%).
Se o problema do Brasil era conectar-se diretamente à Europa, sem passar pelos EUA – o de Angola era conectar-se diretamente aos EUA, sem passar pela Europa:
O objetivo da empresa é transformar Angola em um dos polos de telecomunicações na África.
“Nossa ambição é transportar dados da América do Sul e Ásia por meio do nosso hub africano. Utilizando o SACS, juntamente com os projetos de cabos submarinos Monet e WACS, vamos fornecer uma opção de conectividade mais eficiente entre a América do Norte, Central e do Sul para a África, Europa e Ásia”.
Quanto ao financiamento:
O SACS foi parcialmente financiado pelo Banco do Japão para Cooperação Internacional (JBIC), devido a um contrato de empréstimo em crédito do comprador com o Banco de Desenvolvimento de Angola (BDA), a instituição de desenvolvimento estatal do país. O empréstimo foi co-financiado com a Sumitomo Mitsui Banking Corporation (SMBC) e a Nippon Export and Investment Insurance (NEXI), fornecendo seguro para a parte financiada pelo SMBC.
Com base numa teia de alianças, “Angola Cables” é hoje uma multinacional, proprietária também dos cabos submarinos – MONET, que liga o Brasil à Flórida (EUA); e – WACS, que liga todo o oeste da África à Europa:
Seu fornecedor foi a NEC (Japão) – que participa de inúmeras conexões de toda a Ásia e Oceania com a Europa:
O press-release da NEC, de Outubro 2018, traz certas lembranças da era Geisel (1974-1979), que buscou alianças na Europa e no Japão para contrabalançar a dependência excessiva dos EUA – e fez do Brasil o primeiro país do mundo a reconhecer a independência de Angola sob o governo do MPLA (em contraposição à FPLA e à Unita)
SAIL
O cabo SAIL estabeleceu a 2ª conexão Brasil-África (2020) – e o fato de um dos donos ser a Camtel - Cameroon Telecommunications também é instigante – afinal, Camarões é um país pequeno, e não muito rico, para um investimento tão pesado.
Segundo a IA do Google:
A Camtel (Cameroon Telecommunications) é uma empresa estatal, 100% de propriedade do Governo dos Camarões. Fundada em 1998, a operadora é controlada diretamente pelo Estado camaronês, que detém o monopólio da rede nacional de fibra óptica e gerencia serviços de telefonia, internet e dados.
O outro dono é China Unicom, uma das maiores operadoras de telecomunicações do mundo (wiki), o que garante conexões com os demais países africanos e a Ásia.
O fornecedor HMN Tech também indica o alcance da cobertura do conjunto de empresas chinesas em toda África, Ásia e Oceania:
A HMN Tech (HMN Technologies) é uma fornecedora global de sistemas de cabos submarinos. Ex-subsidiária da Huawei, a empresa é sediada em Tianjin, China. Ela oferece soluções de rede completas, desde o design e pesquisa marinha até a fabricação e instalação, conectando infraestruturas de telecomunicações em 78 países.
EllaLink
Uma terceira empresa estatal esteve na raiz da 3ª ligação do Brasil à África e à Europa – mas foi quase tirada do meio do caminho.
«Um cabo submarino ligando o Brasil à Europa será construído por meio de uma joint venture liderada pela Telebras, empresa estatal brasileira de telecomunicações, e pela espanhola IslaLink Submarine Cables» – noticiava ZDnet no início de 2014, compilando informações de Deutsche Welle e outras fontes.
Em 2012, a Telebrás também firmou parceria com Angola para construir um cabo submarino entre os dois países – mas depois, deu pra trás.
O plano inicial da Telebrás era construir 5 cabos submarinos para os EUA, Portugal, Uruguai, outro cabo brasileiro ligando o norte do país a importantes cidades como São Paulo e Rio de Janeiro, além de Angola.
Angola teve de se virar sozinha – ou melhor, procurar outros parceiros – e Camarões também tratou de cuidar da sua vida.
Ficou apenas o projeto “Europe Link to Latin America” (Ella) – cujo arranjo societário foi definido em Bruxelas, em 2014: – “a IslaLink deteria 45% das ações, a Telebras ficaria com 35%, e os 20% restantes seriam divididos entre fundos de pensão brasileiros e europeus”.
Mudaram os governos e as prioridades. – Em 2018, a Telebras já tinha reduzido sua participação, devido à falta de verbas no orçamento. – Em 2020 a Telebras desistiu de vez.
Em Março 2020, a EllaLink já tinha reorganizado o financiamento – e seu projeto passou a ser “interligar o mercado sul-americano à Ásia (especialmente à China), competindo diretamente com as rotas que passam pela América do Norte ou pelo Atlântico Sul via continente africano”.
O fornecimento ficou a cargo da Alcatel Submarine Networks (ASN) – estatal francesa, e uma das três líderes mundiais na fabricação e instalação de cabos submarinos (juntamente com a NEC e a SubCom). – É controlada maioritariamente pelo governo francês:
ASN Alcatel.
EllaLink